quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Ventos de Outono

Era um final de tarde de outono, o céu estava cinza, logo iria chover, mas isso não tirava a beleza daquelas folhas amarelas sendo arrancadas sutilmente de seus galhos pelo vento e sendo levadas pelo mesmo, e aquele cheiro esplendorosamente inebriante me consumia, eu era uma criança de 13 anos muito.... Estranha? Provavelmente...Mas eu não estava ali para apreciar a beleza daquele parque, eu estava a procura da minha única amiga, Liz, nós tínhamos a mesma idade, ela possuía o mais belo sorriso de todo o mundo, e eu não gostava dela apenas pelo fato do sei sorriso penetrar até o fundo da minha alma, mas porque ela me salvou do que eu era, deixei de ser o garoto isolado, indiferente e abri os olhos para a vida . Meus pais haviam morrido há três anos e minha vida era uma droga, mas não era motivo para reclamar, nem todas as pessoas passam por essas coisas e mesmo que passassem ai da sim não seria desculpa.
E em meio a minha procura por aquele parque, escuto um choro, choro? Sim, era um choro! Mas quem haveria de estar chorando? Então simplesmente segui o som, e ao chegar em uma árvore imensamente grande com folhas espessas que chegavam a impedir a visualização do céu, vi uma garotinha sentada, com sua cabeça enterrada entre seu braços, chorando inconsolavelmente, e de imediato a reconheci, era Liz, mas por que chorava? Ao notar minha presença percebi a surpresa em seu rosto. Seria estranho da minha parte dizer que ela ficava linda chorando? Mas não importa, rapidamente tiro este pensamento da cabeça, tão logo me sento ao lado dela, colocando meus braços ao seu redor, e então, esperando alguns minutos para sessar os constantes soluços, pergunto a ela o que havia acontecido.
Com seus olhos marejados e vermelhos, ela me olhou com uma cara tão triste e ressentida, a vontade de abraça-la naquele momento era maior que tudo, com uma voz manhosa e embargada ela me disse "-Não queria que me visse chorando Miguel, não deveria se preocupar, meninas são bobas, eu sou boba! Apenas estou triste e nada mais." E ao ouvir isso só confirmei algo, o quanto garotas são metidas a duronas, então eu insisti inúmeras vezes até ela me contar o motivo
Com o rosto corado e fitando o chão ela disse "-Minhas amigas Miguel, elas são tão cruéis... Elas... Elas pegaram meu diário e...e..ah meu Deus." suas lágrimas já começavam a deslizar sobre seu rosto. "- elas leram ele..." Ela voltou a chorar, e eu já desesperado, não sabia o que fazer, acho que garoto nenhum sabe o que fazer diante de uma garota em prantos. Então depois de um minuto ela cessou o choro e continuou "- Elas descobriram que eu nunca beijei ninguém, zombaram tanto de mim, dizendo que eu sou feia de mais, desengonçada de mais, estupida de mais para ser beijada por alguém, eu as odeio, odeio!! Mas o pior é que elas tem razão, eu sou detestável."
Por um momento achei que esse fosse um motivo muito bobo para se chorar, mas garotas são garotas... E de qualquer modo discordava dessas basílicas de qual a Liz chamava de amigas, eu a achava a garota mais linda dos quais meus olhos já viram. Não era apenas seu exterior, mas o jeito dela, o modo como ela via o mundo e ate mesmo o jeito desengonçado, para mim era um charme particularmente dela, tudo nela me encantava , e quando admiramos e gostamos de alguém os defeitos se tornam meras peculiaridades que podem ser facilmente descartados. Então com toda a coragem do mundo, toquei seu rosto vermelho de tanto chorar e o levantei para que ela olhasse para mim e disse " -Pois eu discordo ,eu lhe beijaria de todos os jeitos e formas, no presente, no futuro, no infinito, por que você é a garota mais doce que já tive o prazer de conhecer."
E nesse momento pude sentir algumas gotas de chuva nos atingir,o vento frio nos abraçava e em um impulso a beijei, um beijo simples, carinhoso, frio e molhado pelas gotas constantes da chuva, eu não sei o que senti, mas foi como se o tempo não existisse, nem os problemas, nem mesmo aquela chuva. E no momento em que paramos o nosso beijo, o encanto se desfez e voltamos a realidade. Não posso descrever o quão constrangedor e maravilhoso foi, suponho que todos os primeiros beijos devam ser assim, se não? Bom, deveriam ser. Então sem dizer nada me levantei do chão já molhado, dei a mão para que ela a pegasse. Juntos saímos de baixo da árvore e corremos pela chuva, já era noite e a chuva estava piorando... Era hora de nos despedir , então a abracei forte, um abraço molhado mas ao mesmo tempo reconfortante depois dei um beijo na terra dela e sussurrei em seu ouvido "-Até a próxima." E assim nos separamos, indo cada um para sua casa, assim pensei...
Cinquenta anos de passaram, e aqui estou eu, um velho de 63 anos que até hoje se arrepende de ter a deixado ir para casa sozinha sobre aquele temporal. Liz morreu naquela mesma noite , atropelada por um carro desgovernado ... Meu coração dói toda vez que eu lembro, que eu penso que se a tivesse mantido junto a mim naquele parque por mais um tempo, se a tivesse acompanhado, talvez ela estivesse viva, do meu lado... Se eu soubesse que aquela era a ultima vez que a veria , teria feito tudo diferente.




ass: Amora
  

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